A Família Ainda É O Principal Fator Do Sucesso Escolar?
Lucas Costa Moterani
Artigo de opinião sobre o papel da família na formação dos hábitos que sustentam o sucesso escolar.
Nos últimos anos, tornou-se comum atribuir à escola praticamente toda a responsabilidade pelo sucesso ou fracasso educacional dos estudantes. Quando os indicadores de aprendizagem são baixos, discute-se currículo, metodologia, tecnologia, formação docente, infraestrutura, financiamento e políticas públicas. Todos esses fatores são importantes. Entretanto, considero que existe uma questão frequentemente evitada no debate educacional: a influência decisiva da família na formação dos hábitos que tornam a aprendizagem possível.
Como professor da educação básica, observo diariamente estudantes com acesso à mesma escola, aos mesmos professores, ao mesmo material didático e às mesmas oportunidades pedagógicas, mas que apresentam resultados radicalmente diferentes. Minha experiência tem me levado à conclusão de que o fator mais determinante para o desempenho acadêmico é a formação dos hábitos de estudo e de responsabilidade, e esses hábitos são construídos majoritariamente no ambiente familiar.
A escola pode ensinar, mas não pode substituir a formação recebida ao longo de anos dentro de casa. Quando um estudante chega ao Ensino Fundamental II ou ao Ensino Médio, ele já traz consigo uma série de comportamentos consolidados. Alguns sabem organizar materiais, cumprir horários, concluir tarefas e persistir diante das dificuldades. Outros demonstram extrema dificuldade em realizar atividades simples, manter atenção ou assumir responsabilidades básicas.
A família possui três características que a escola não consegue reproduzir integralmente: tempo, autoridade e capacidade real de aplicar consequências. Enquanto um professor convive algumas horas por semana com seus alunos, os responsáveis convivem diariamente com seus filhos durante anos. Além disso, possuem legitimidade para estabelecer regras, limites e expectativas de comportamento.
Frequentemente encontro estudantes que não apresentam dificuldades cognitivas significativas. Eles compreendem as explicações, acompanham as aulas e possuem potencial para aprender. Contudo, não estudam, não realizam atividades, não revisam conteúdos e não desenvolvem qualquer rotina de aprendizagem fora da escola. Nesses casos, o problema não está na capacidade intelectual, mas na ausência de hábitos acadêmicos básicos.
Não defendo que a escola seja irrelevante. Pelo contrário. Professores competentes, metodologias eficazes e boas instituições fazem enorme diferença. Entretanto, acredito que a escola produz seus melhores resultados quando encontra alunos que já foram preparados para serem ensinados.
Nos debates educacionais contemporâneos, costuma-se enfatizar aquilo que a escola deveria fazer para melhorar os resultados dos alunos. Considero essa discussão necessária, mas insuficiente. Precisamos também discutir aquilo que as famílias deixaram de fazer. Nenhum sistema educacional consegue compensar integralmente a ausência de acompanhamento familiar, de limites consistentes e de valorização dos estudos.
Por essa razão, continuo acreditando que a família permanece sendo o principal agente formador dos comportamentos que sustentam o sucesso escolar. Antes de discutirmos novas metodologias de ensino, talvez devêssemos voltar a discutir uma questão mais fundamental: quem está ensinando as crianças a serem estudantes?